Ratio Studiorum

Ratio Studiorum (Em latim)

Ratio Studiorum (Em português)

 

A origem do Ratio Studiorum

Em 1517, Lutero prega na porta da catedral de Wittenberg as suas controvertidas e famigeradas noventa e cinco teses. Tem-se ali a gênese de um movimento herético que se espalharia por aquém e além mar. Mirando barrar os avanços heréticos que se estendiam pelo mundo, um grupo de estudantes da universidade de Paris, liderados por Inácio de Loyola, dirige-se ao papa Paulo III e lhe pede permissão para a fundação de uma ordem religiosa que alicerçava-se numa regra de quarenta e nove pontos; os quais previam a criação de colégios para a instrução e catequização. Com o beneplácito do pontífice, em 1541, nasce a ordem da Companhia de Jesus. O objetivo da ordem era atuar como milícia de Cristo, a exemplo dos apóstolos, peregrinando e semeando o evangelho pelo mundo. À reboque da ordem religiosa, veio uma rede de instituições educativas que era por eles mantida. Os primeiros dirigentes destas instituições foram enviados por Inácio à universidade de Paris, onde receberam as instruções necessárias para se realizar tal empreendimento. Estas escolas passaram a receber um grande aporte de estudantes e rapidamente se proliferaram por todo o mundo. Em face a rápida expansão destes colégios e da grande demanda por professores, que viam-se não totalmente preparados para tal missão, fez-se sentir a necessidade de um documento normatizador das atividades nos colégios. 

A expansão dos colégios foi tão expressiva que, em 1626, havia já 444 colégios espalhados por toda Europa. Antes de morrer, Loyola escreveu uma carta ao rei Filipe II, dando conta do reconhecimento da importância dos colégios jesuítas:

 "vê-se diariamente quanto é difícil aos que envelheceram no vício e nos maus costumes converterem-se num novo homem e consagrarem-se a Deus, e até que ponto todo o bem da cristandade e da sociedade depende de uma boa educação da juventude; esta macia como a cera, recebe a impressão da forma que se quer. Mas, como para procurá-la se encontram muito poucos professores virtuosos e letrados que sigam o exemplo da doutrina, a Companhia, com o zelo que Cristo nosso Redentor nos inspirou, resolveu assumir essa parte menos honrosa mas não menos frutuosa, da instrução das crianças e dos jovens. Assim, entre os outros ofícios que exerce, não é o menor dos seus deveres manter colégios nos quais, não somente os seus, mas também os de fora, recebam gratuitamente, os conhecimentos necessários a um cristão, as ciências humanas, dos rudimentos da gramática até às mais altas faculdades, segundo os recursos que podem oferecer os distintos colégios".

A partir de então foram 15 anos de minuciosos estudos que redundaram na versão oficial de 1599 do plano de estudos da companhia de Jesus – O Ratio Atque Institutio Studiorum Societatis Jesu. Este documento governou as diretrizes escolares jesuíticas por quase dois séculos, até o ano de 1773, quando o papa Clemente XIV impediu a ordem de atuar em seus colégios. 

 

 

Notáveis educados no Ratio Studiorum

No livro O método pedagógico dos Jesúitas, o Pe. Leonel Franca cita uma série de expoentes provenientes dos mais variados ramos da ciência que se benificiaram da metodologia empregada pelos jesuítas. Alguns destes nomes são: Cervantes, Bernardes, Montesquieu, Voltaire, Moliére, Descartes, Galilei, Fontenelle, Berthollet, Bossuet, Gregório de Matos, Cláudio M. da Costa, Alvarenga Peixoto, Caldas Barbosa etc.

 

A estrutura do Ratio Studiorum

A governança do colégio era conferida ao reitor, eleito pelos professores mais antigos. De seguida, vinha o prefeito dos estudos, em cujos ombros caía a responsabilidade pela inspeção do ensino, a socialização dos novos professores e a supervisão do trabalho dos professores. Por fim, em cada classe havia um professor principal que seria o responsável pelos estudos de cada aluno, assumindo-se como um amigo de cada aluno, cheio de compreensão e de autoridade. A hierarquia era sólida e fazia do ambiente um sítio ordeiro, de modo que – embora não prescrita mas aceite, punições físicas ou castigos raramente se faziam presentes (as punições, quando aplicadas, ocorriam via palmatória ou chicote, nunca no rosto ou cabeça). O plano curricular jesuíta sugeria uma forte formação acadêmica, conferindo igual importância aos componentes recreativos e desportivos. Neste sentido, pode-se dizer que levavam à risca as palavras de Platão:

"Aquele que é apenas atleta é rude demais, vulgar demais, selvagem demais. Aquele que é apenas um intelectual é muito frouxo, muito afeminado. O cidadão ideal é o atleta intelectual: homem pensador e homem de ação."

A gramática era considerada a pedra angular do processo escolar, pois tal disciplina constituía os rudimentos que edificariam os conhecimentos superiores de retórica. A gramática era aprendida mediante o estudo de textos dos grandes autores, os gregos e os romanos tinham a preferência dos jesuítas. A coroação do aprendizado de gramática ocorria na preleção: um exercício que exigia do aluno a capacidade de dominar completamente os pormenores literários. "Antes de tudo era necessário situar o texto (argumentum); depois, mediante uma explicação de palavras, precisa, profunda e reduzida, devia referir-se às expressões mais notáveis e difíceis (explanatio). Depois vinha a análise propriamente técnica do texto, de acordo com as regras da retórica, da poética e da gramática (retorica); depois, a elucidação histórica, geográfica e científica dos factos (eruditio). Por último, a transposição da exégesis literária do que o ramalhete espiritual constitui na meditação religiosa, a apreciação geral do trecho escolhido, mediante um cotejo com os demais textos do mesmo autor ou com o grandes modelos de Cícero (latinitas)" (1).

Na metodologia jesuítica, cultivava-se com enorme apreço a competição, a emulação dos melhores. Deste modo, a teatralidade barroca foi a ela incorporada de modo a criar mecanismos que estimulassem a competição. A turma era fracionada em duas facções: De um lado havia os romanos; de outo, os cartagineses. Os alunos de maior destaque eram investidos com a magistratura suprema e ocupam o topo da hierarquia social de suas facções, os demais alunos eram investidos de posições menos prestigiadas e deveriam trabalhar duro se quisessem escalar a hierarquia. A cada posição em uma facção havia uma posição equivalente na facção oposta, que lhe fazia frente, um homólogo de igual força e competência que era o seu êmulo. Deste modo os embates ocorriam aos pares e os resultados individuais impactavam na classificação geral do grupo.

No secundário, a filosofia tinha papel de destaque; os estoicos como Cicero e Sêneca; bem como Aristóteles e, em lugar cimeiro, Santo Tomás de Aquino tinham importância ímpar. Conhecia-se a filosofia via leitura e explicação dos textos filosóficos. A coroação deste aprendizado ocorria nas disputas sobre as teses dos autores.

A história era conhecida majoritariamente através dos grandes historiadores que versaram sobre a antiguidade Grega e Latina. Deste modo, os textos de Heródoto, Tucídides, Tito Lívio, Floro, Valério Máximo e Salústio eram frequentemente lidos, comentados e disputados por professores e alunos.

A matemática e a física não tinham igual importância neste currículo. Conhecia-se matemática via obra de Euclides; ao passo que a física, filosofia natural, dava-se a conhecer por via das obras de Aristóteles e Cláudio Ptolomeu.

 

NOTAS: 1) Mesnard, P. (1992). "La Pedagogia dos Jesuítas", in Jean Château. Los Grandes Pedagogos. México: Fondo de Cultura Económica, p. 73.